26 de novembro de 2010

Fora da estrada


Não impressiona tanto um homem

o barulho nos telhados da chuva que se aproxima
os vários tons do pôr-do-sol
os ruídos tanto da vida natural quanto da vida fabricada
o som da risada de irene, a boa
o aniversário de uma criança pobre comemorado num bar, com um pedaço [de bolo comprado ali mesmo, somente com a mãe, o pai e o filhinho – entre [garrafas
o próprio deus, ainda que viesse armado
helena vestida de finíssimas franjas do próprio vento
a visão pra quem era cego, a música pra quem era surdo, a estrada pra [quem não andava, a  
 [mulher pra quem não funcionava

nada impressiona tanto este homem
quanto as rodas de um fora-de-estrada

Diego Domingos

9 de outubro de 2010

Verdades sobre a mentira

Um folhetim de Diego Domingos

Chapter I

         Escrevo num dia qualquer de Sarajevo. Ou de Londres. Não importa. Importa pra você que escrevo com as costas apoiadas no teto e aponto o lápis na testa. Também uso um editor de pensamento, básico, com o qual molho a ponta dos dedos para folhear minhas idéias. De onda em onda eu tiro um som, imprestável na maioria das vezes. De vez em quando tenho vontade de só olhar pra cima, andar assim feito o Rain Man tentava e não conseguia. Que remédio!
         Tento importar um sonho que vem sempre mudo e em preto e branco, sem legendas. A minha vida afetiva acabou. Agora só resta um corredor que, sem objetivo traçado, atravessa a cidade todos os dias, com pressa de que nenhum lugar o pare.
         A verdade mais verdadeira é que sou ele, ainda que ao correr da pena. Seu corpo está sempre correndo de seu espírito, de suas idéias, de pensamentos que, nascidos, querem se desenvolver... mas ele não deixa, ou teme, e foge. Comigo acontece o inverso. É o esprit de corps que me foge, é a própria alma que me escapa, é o bem e o bom que tenho em mim que me teme, e deserta. Espírito desertor. Aonde vais, não importa? Desde que vá sem mim? Se eu morresse sem alma, em que parte do caminho? Não devias ter escutado um velho que um dia predisse isto. Agora são favas contadas. Sacas de favas contadas. E nenhuma vontade de descer da pilha.
         Eu devia estar decorando o pôr-do-sol da minha bela Verona; devia estar desenhando as linhas da sua boca com a ponta dos dedos e da língua. No entanto, fecho os olhos e beijo a boca, fechando-a também. Onde estão as minhas mãos, meus braços e minhas pernas agora? Sei que a cabeça ora dum lado, ora doutro, os olhos fechados vendo o gosto debaixo da língua, o desejo embaixo dos cabelos da nuca... É mais difícil acreditar no amor do que em Deus.
         Uma vez não fui num lugar aonde não queria ir. Não tive um filho que não quis ter. Não me desculpei com quem não queria me desculpar. Não ressuscitei aquilo que queria morto. Uma vez entrei no bar pela porta que vai e vem. De uma só vez li o Dom Quixote Casmurro. Verdade que não entendi a primeira parte de ambos. Mas creio que este foi escrito pra isto mesmo. Não o meu. O meu vem esclarecer o que não estava enigmatizado.
         Embora tarde sofra.
         

17 de junho de 2010

Monólogos de Pastelão


Sentado na calçada do poema

Vejo passar os carros de uma sentença

E dentro deles pessoas animadas bandadas

tiradas riscadas rabiscadas a-li-nha-das

Sentado às margens de toda a Poesia

Minha caligrafia me torna fria cinza

Estou dentro do tubo desta caneta

Corre tinta (de caneta) nas nossas veias

Ser poeta demanda tempo?

Alma vem com tempo já dizia Nelson Rodrigues

O tempo de uma criança que viveu poucos minutos

O tempo das Idéias

No tempo que idéia tinha acento

No tempo das reticências

...Quem tinha uma vírgula era Reificado...

Do alto de um parágrafo de sete andares

Eu me recuso a contar

Contar o tempo de um poeta

Contar o tempo de uma vida

Faço parte dos que não têm tempo

E mesmo que tivessem - não se importam

Para que, diabos!, serve um poema?

Para salvar o mundo? Só se for do próprio poeta

A poesia não serve para nada, além

De que nos serve o verso branco ou o soneto?

Há tanto ou mais poesia - na vida!

Eu o ajudaria a empurrar o carro para pegar

Juntaria outros amigos para bater sua laje, na lata até

Mas estas literatices não são de homem sério

Você devia cortar este cabelo, cuidar destes dentes

Ver um pouco de tevê - isto, sim, é normal!

Porque alguém que não quer ganhar dinheiro

não pode ser normal

Sabe como você pode terminar este poema?

(Estou te ajudando)

Atirando-o no lixo

E atirando a lixeira longe

Ser poeta nos dias de hoje - você deve estar brincando

Eu aprecio até alguns poetas - mas todos de séculos remotos

Lembra do bandido bom é bandido morto?

Então: deixa destas frescuras

Use estes livros mais grossos como calço

Olha: esta estante parece que vai cair

Quem é esta na fotografia? É sua filha ou sua mulher?

A sombra é sua - estou vendo

Por que eu nunca te vejo na missa?

É verdade que você é panssexual?

fumante passivo e jornalista sem diploma

Ter total confiança na poesia é como acreditar cegamente

Na previsão do tempo ou em horóscopo

A poesia é utopia como a sonhada sociedade justa e igualitária

Até socialmente a poesia é algo condenável

Porque ela afasta quem escreve do convívio social

Poeta que aparece em foto de coluna social não merece este nome

Poeta pra mim são todos os anônimos

Todos aqueles que não gostam de aparecer têm um pouco de poeta

Você acha o luar bonito? Eu também

Mas não por isto eu cometo poemas

Daí você escreve mas não mostra pra ninguém

Então pra que escrever?

A graça não está em si mostrar?

E dá este trabalho todo que você me falou, mesmo?

Primeiro escreve à mão, depois digita, imprime

Lê em voz alta para ver se está bom

Matura na gaveta um tempo, relê, reescreve alguns trechos

Torna a dizê-lo em voz alta para si mesmo, engaveta de novo e esquece

Daí um belo dia a lagarta vira borboleta, saindo do casulo?

Que desperdício de tempo, meu Deus!

Se fosse eu...

Se acreditas por que não publicas?

Tens medo de que não reconheçam ali o valor da tua poesia?

Pegas então no cabo desta enxada, ó Camões de Varapaus!

Até votaria em ti para deputado se fosses caixeiro e não belo letrista

Olha aqui a minha irmã, ó Poeta de Cochabamba!

Ela quer um banqueiro, um jogador famoso e ingênuo, um oficial

Ela nem nunca ouviu falar que poeta fosse profissão

Pra ela poeta e pederasta são sinônimos

Vamos viver de brisa, Anarina*

Um taxista encheu ela mas ela esconde este detalhe nas entrevistas de emprego e testes de sofá

Ser mãe é ver o pai descer do Paraíso

Como assim: escrever um romance? O que você sabe do Amor?

O Amor não está em nenhum livro, meu amigo

E amar não é uma lição que se ensine ou se aprenda - nos livros

Amar a Verdade não é amar de verdade

A gente vive um romance; é diferente

Mas Dom Quixote não era um desenho que passava no Balão Mágico?

Toda tarde era triste no pomar da nossa casa

As frutas, nos pés, não as do chão, aproveitaram melhor

Aquele tempo lento e escorrido (tal seiva) até a Morte do Sol no matante

Assim eu quereria o meu último poema*

Que se pusesse no ocaso para nunca mais voltar

Que me diz das ruas? São um bom lugar pra se viver?

Pra se passar, sim

Eu picharia muros com frases de livros

Andaria com pets de xixi

Os dentes pretos, as unhas sujas, envolvido num mau-cheiro

Roto como os ratos de esgoto

Escroto como os super-poderosos políticos

Não andaria nu mas estrategicamente com o peru à mostra

Teria esquecido o sorrir de si mesmo

Não teria mais norte

Qualquer um que se aproximasse seria declarado morto aos meus olhos

Não mendigaria e até recusaria esmola

Seria o dono da rua

Eu vou primeiro e espero do outro lado

Fechar o livro, fechar o poema é tarefa árdua

Poucos sobrevivem nesta selva de pedra

Ainda mais lançando mão de uma caneta, a-penas

Na fuga, se protegendo na área de fumantes

Se você me ouve é porque não fez nenhuma vítima ainda

É de graça este conselho:

Não declames teus poemas em praça pública

Guarde-os para si mesmo como se fossem ainda apenas pensamentos

Um homem vale pelo que diz mas vale muito mais pelo que não diz

Vai por mim

Fizeste uma boneca do teu livro?

Para mostrar a um editor?

Qual a cor da capa?

A gente conhece um homem, como os livros, pela capa

Queima-os todos se chegarem a ser publicados

A espiral negra da fumaça dominará os espaços negros de todos os mundos

Passando, ainda que de outro modo, a Mensagem.

- Você está brincando?! Eu não compraria um livro seu nem que...


Diego Domingos


*Leiam o poeta menor, Manuel Bandeira


Ilustração de Jacek Yerka em http://www.yerkaland.com/

2 de junho de 2010

POEMAS RECOLHIDOS NUM DIA DE INVERNO



Poemas ficam esparsos por gavetas e arquivos e num belo dia, ou num dia feio, você se pega pensando nuns versos originais mas não inéditos. É seu, mas não é de agora. Você próprio se diz de memória. Então é hora de trazê-los à luz. Para que você próprio os reveja. E aqui embaixo estão alguns destes versos quase poemas que estavam na sombra. Na memória. Quase soltos no ar de tão etéreos.


Eu sonharei todas as manhãs
Com novas canções me acordando.

***

Sem Deus não há mistério.

***

Livra-se do livro
e agarra a sorte
morta de esperar.

***

Preciso do Manuel
Bandeira da poesia nacional.

***

Não rimam minha dor com teu amor.
A dor é minha e o teu amor é livre.
Ela está aqui dentro e ele aí fora.
Minha dor é só minha.
Teu amor é de ninguém.

***

Se quero escrever ela não vem.
Se quero sair ela chega.
A Poesia é assim.
Num quer o que quem escreve deseja.

***

Vivemos na mesma vila
Onde vivem também
Outros vilões e outras heroínas.
A sorte nos sorri da esquina
E quando alcançamos esta
Já não avistamos aquela.

***

O fim está mais próximo do início do que imaginamos. (2/6/2010)

Diego Domingos foi passadeira num castelo medieval em outra vida