9 de outubro de 2010

Verdades sobre a mentira

Um folhetim de Diego Domingos

Chapter I

         Escrevo num dia qualquer de Sarajevo. Ou de Londres. Não importa. Importa pra você que escrevo com as costas apoiadas no teto e aponto o lápis na testa. Também uso um editor de pensamento, básico, com o qual molho a ponta dos dedos para folhear minhas idéias. De onda em onda eu tiro um som, imprestável na maioria das vezes. De vez em quando tenho vontade de só olhar pra cima, andar assim feito o Rain Man tentava e não conseguia. Que remédio!
         Tento importar um sonho que vem sempre mudo e em preto e branco, sem legendas. A minha vida afetiva acabou. Agora só resta um corredor que, sem objetivo traçado, atravessa a cidade todos os dias, com pressa de que nenhum lugar o pare.
         A verdade mais verdadeira é que sou ele, ainda que ao correr da pena. Seu corpo está sempre correndo de seu espírito, de suas idéias, de pensamentos que, nascidos, querem se desenvolver... mas ele não deixa, ou teme, e foge. Comigo acontece o inverso. É o esprit de corps que me foge, é a própria alma que me escapa, é o bem e o bom que tenho em mim que me teme, e deserta. Espírito desertor. Aonde vais, não importa? Desde que vá sem mim? Se eu morresse sem alma, em que parte do caminho? Não devias ter escutado um velho que um dia predisse isto. Agora são favas contadas. Sacas de favas contadas. E nenhuma vontade de descer da pilha.
         Eu devia estar decorando o pôr-do-sol da minha bela Verona; devia estar desenhando as linhas da sua boca com a ponta dos dedos e da língua. No entanto, fecho os olhos e beijo a boca, fechando-a também. Onde estão as minhas mãos, meus braços e minhas pernas agora? Sei que a cabeça ora dum lado, ora doutro, os olhos fechados vendo o gosto debaixo da língua, o desejo embaixo dos cabelos da nuca... É mais difícil acreditar no amor do que em Deus.
         Uma vez não fui num lugar aonde não queria ir. Não tive um filho que não quis ter. Não me desculpei com quem não queria me desculpar. Não ressuscitei aquilo que queria morto. Uma vez entrei no bar pela porta que vai e vem. De uma só vez li o Dom Quixote Casmurro. Verdade que não entendi a primeira parte de ambos. Mas creio que este foi escrito pra isto mesmo. Não o meu. O meu vem esclarecer o que não estava enigmatizado.
         Embora tarde sofra.
         

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