18 de janeiro de 2004

O QUE É A POESIA?

Poesia não carece de interpretação, carece de emoção, de amor, dos dois lados da mensagem. Poesia é falta - de beleza, de vida; poeta é ausência, é solidão, é vazio. A palavra é sempre um excesso do espírito. Por isso o poeta é um delator, porque está sempre flagrando os momentos particulares e denunciando-os no megafone, como um orate, deslumbrado com as manifestações da vida que não consegue integrar.

21 de setembro de 2003

PERDIDO DE AMOR

Mais uma vez me arrumo. Vou sair. Certas noites me sinto perdido, não sei que direção tomar. Na rua da Aline lembro que terminamos há um mês e volto correndo. Passando em frente à casa da Renata ouço o latido do seu cachorrinho de colo que nunca gostou de mim. Sei que não é ali mas ainda não me lembrei do endereço certo da minha namorada. Nisto vejo vindo em minha direção a linda Julliett e vacilo; mas nunca entrei na sua casa. Ficamos apenas. Ela me sorri, e passa. Alice, Amanda, Carol, Polyana, meu Deus!, onde estará o meu amor? Abatido sento-me num banco da Praça 1* de maio e, sem notar nos casais ali, seguro a cabeça entre as mãos lutando com minhas lembranças. E na minha cabeça vêm tantas salas, tantos portões, tantos ex-cunhados e sogros, tantas ruas... Desisto. Levanto a cabeça e olho pro Santo Antônio. Pra Vila. Pro Santa Efigênia. Bela Vista. Será o São José? Desisto e tomo novamente a direção da minha casa. Impossível, enlouqueci. Esqueci até onde moro. Estou andando outra vez sem sentido. Mas um rosto começa a se formar no meu pensamento, sua voz, seus gestos, seu corpo. Minhas mãos deixam o bolso e meu passo torna-se mais firme. Ainda não sei aonde as minhas pernas me levarão mas logo me reconcilio com o caminho, as casas, as pessoas. Sorrio feliz para a Gabriela, Marcela, Mariana e até para a Karine porque já sei meu 'destino', que sorri pra mim quando me aproximo do portão e lhe sorrio de volta, benfazejo. Viviane, divertida, quer saber “que cara é essa”, mas só depois de me abraçar e beijar demoradamente. Então faço as pazes com o mundo, entrego-me nos braços do verdadeiro amor, agradecido por a ter encontrado e muito mais feliz por ter me encontrado também.

12 de maio de 2001

DE COMO NÃO CONHECI PRISCILLA PORTO NUM 21 DE ABRIL

O grande encontro estava marcado. Não pelo acaso, ao contrário: mensagens haviam sido trocadas, e haviam escolhido o 21 de abril, os caminhos de Ouro Preto e a melhor safra de suas palavras. O maior poeta de Itabirito encontraria a maior escritora da região dos inconfidentes em uma de suas crônicas. O que teria dado errado, então? Os comentários do dia seguinte ao encontro que nunca houve reportavam que o grande poeta escorregara numa pedra-sabão logo em sua chegada, tendo quebrado seu orgulho em várias partes, politraumatismo que nenhum hospital conseguiu tratar. Outros disseram ter visto o grande poeta em companhia de outra moça que vestia roupas de época, e que tinha um sorriso e um brilho nos olhos de outros tempos. Outros, mais radicais, dizem ainda hoje que Diego Domingos e Priscilla Porto jamais existiram, não viveram desventuras nem perderam conduções, que jamais amaram ou compraram, que não passam afinal de história dessa gente. Seus poemas e crônicas outros escreveram e quiseram chamar-se Diego e Priscilla -- tão românticos esses nomes do século passado!

26 de março de 2001

PEQUENO AUTO-RETRATO

Para Priscilla Porto

Por que eu sempre fico constrangido quando me chamam de poeta? Por que os gatos me transmitem tanta dignidade? Por que eu nunca consigo sair de casa sem esquecer nada, e ter de voltar várias vezes? Por que eu não gosto de doce na comida, exceto banana? Por que eu não consigo ler só uma parte do jornal? Por que eu gosto dos domingos? Por que minha mãe colocou meu primeiro nome de Junior? Por que ler para mim é tão essencial quanto respirar -- e escrever, não? Por que acordar cedo, pra mim, nunca foi natural? Por que eu não suporto o silêncio, não aguentando uns poucos minutos durante o dia sem o barulho do rádio ou da tv? Como é que eu consigo abandonar a leitura de um livro que estou gostando, sem terminá-lo, para ler outro? Por que eu gosto dos dias nublados e chuvosos, e não dos quentes e ensolarados? Como é que um dia eu já não gostei de Dorival Caymmi, Djavan e Tom Jobim, e agora gosto? Por que eu nunca consigo ver a lua direito? Por que eu lavo tanto as mãos? Por que eu não gosto de (meu) cabelo? Por que eu não gosto de espelhos? Por que eu sou tão caseiro, sentindo que o meu lugar é em todos os lugares, viajando? Por que eu não sei qual foi a minha primeira vez? Como é que eu conheço tanta gente e não tenho nenhum amigo? Por que eu não gosto de crianças, principalmente bebês? Por que eu tenho a impressão de que não vou morrer velho? Por que eu me emociono mais com a ficção do que com a realidade? Por que eu não vejo os animais como inimigos naturais? Por que sempre que eu tropeço eu dou uma corridinha? Por que eu gosto mais do som das palavras do que do seu significado? Por que eu tenho tanta vontade de usar barba, e não uso? Por que eu nunca toco nas pessoas, naturalmente? Por que eu lembro tudo de uma pessoa conhecida, menos o nome? Por que eu também penso que "o belo da vida ainda está pra nascer"? Por que eu vivo anotando frases, pensamentos e versos, recortando e guardando reportagens, crônicas e fotos -- para quê, para quem? Por que eu nunca lembro se almocei? Por que nunca mais passaram Love Story na televisão? Como é que eu conseguia escrever poemas tão longos? Por que eu só durmo com o rádio ligado? Como é que eu consigo viver sem visitar ninguém, e sem receber nenhuma visita? Por que eu só consigo pensar no dinheiro como investimento e nunca como economia? Por que eu acho que, se não fossem pelos discos e imagens históricas, eu nunca acreditaria que os Beatles e o Pelé tivessem existido? Será que algum dia eu vou entender a expressão "bacia das almas"? Por que eu nunca espero o pior das pessoas? Por que eu escrevo com a mão direita e chuto com a perna esquerda? Por que eu prego as minhas contas a pagar na parede, à altura dos olhos? Por que eu sempre acordo de mau humor? Por que eu só durmo de lado? Por que eu não nutro nenhuma esperança pelo futuro da Humanidade, achando que os excepcionais, os gênios, os poetas serão sempre minoria neste mundo?