23 de abril de 2001

COMO NÃO CONHECI PRISCILLA PORTO NUM 21 DE ABRIL - Parte I

Acordei naquela manhã confuso. Confuso, acordei naquela manhã. Acordei naquela manhã confusa. Confundi aquela manhã com outra, acordado. Não acordei aquela manhã, de tão confuso. Dediquei uma canção a Deus naquela manhã e dormi o resto do dia. Tive vários sonhos e em todos havia uma pedra, a qual não conseguia transpor, da qual não conseguia me desviar, não conseguia remover nem destruir, ao menos ver o que havia atrás dela. Não tenho certezas enquanto durmo -- um pouco menos do que quando estou acordado -- então intuí que aquela pedra não esteve sempre ali, que também ela não era uma verdade sólida nem uma certeza duradoura mas que estava ali, diante de mim, porque alguém a colocara naquele lugar, naquela hora e para impedir somente a minha passagem.

Continua...

diegodomingos@yahoo.com

6 de abril de 2001

O HOMEM DO FUTURO

"Ninguém sabe o que sou quando rumino. Posso dizer, sem medo de errar, que rumino muito melhor do que falo. A palestra é uma espécie de peneira, por onde a idéia sai com dificuldade, creio que mais fina, mas muito menos sincera. Ruminando, a idéia fica íntegra e livre. Sou mais profundo ruminando; e mais elevado também."
Machado de Assis

Ao contrário das outras pessoas, para quem pensar dói, a minha luta é para desligar o cérebro, conseguir parar de pensar, de imaginar, de inventar. Claro que sou melhor "ruminando" (como o Machado) do que escrevendo, e melhor escrevendo do que fazendo. Mas isto também é próprio da minha raça, humana, que vive metendo os pés pelas mãos, vide qualquer página da sua História. Desenho mapas detalhados antes de sair pra rua; rebusco cada frase que vou dizer antes de encontrar a namorada; calculo cada lucro ou prejuízo mil vezes antes de contraí-lo. Este sistema tem me prejudicado muitas vezes na vida. Social, financeira e amorosamente. Os amigos, como os imagino, não existem; o dinheiro que "ganho" pensando não me serve; o amor que idealizo não chega a se concretizar 10%. E estando aqui, agora, é como se não estivesse, e nem sequer pertenço à dimensão outra, do mundo idealizado, da ficção, porque até a obra que poderia estar pronta foi apenas esmerilhada, e esfarinhada, no pensamento improfícuo.
Então não escrevi o livro, não me tornei "alternativo", o 'outsider', o artista, o poeta, o louco que vê toda a verdade do mundo. Também não plantei a árvore, não ganhei dinheiro, não construí nada, não economizei, não tive carro nem terreno, muito menos ações, não me sobressaí. E finalmente não tive um filho, não soube conceber, e se o fiz, não soube reconhecer a minha metástase, reconhecê-la como reflexo do meu gesto, continuação da minha gênese.
Quase sempre deixo de ser antes de ter sido, e o pior é que as pessoas não chegam a reconhecer o intervalo entre estas duas pontas -- nem eu. Mas não me lamento muito porque somos só eu e o mundo os interessados, a coisa fica só entre nós dois, no que ele pode me oferecer e eu a ele, e o que esperamos um do outro. Vocês não têm nada a ver com isso, a não ser como testemunhas -do nosso entendimento ou da nossa cisânia.
Vocês me intimidam, nunca fico completamente à vontade, parece que tem sempre alguma coisa para acontecer, acontecimento que vai gerar perdas irreversíveis. Um gesto, por menor que seja, quebra uma cadeia imensa de expectativas, sonhos, projetos e idealizações -- palavras minhas tão caras. Eu não faço o gesto, eu não digo a palavra, eu não dou o primeiro passo, eu não me exponho. Quem pode me garantir que sobreviva a uma saudação muda, a um toque involuntário, a um gesto mais afável que o recomendado? Não, eu não nasci para viver, comer, fazer, lutar. Eu nasci para pensar, imaginar, observar, ouvir, admirar, testemunhar, e ficar indiferente a tudo, ainda que às vezes comovido. Não sou a luz do mundo, muito menos a consciência, sou apenas a temperença. Meço a paixão pela apatia obtendo outro resultado. Não amo nada com paixão transformadora, não quero adquirir a qualidade do que admiro, quero apenas comprová-la. Quero que Drummond, Picasso, Mozart sempre se pertençam.
Quanto a mim quero só conseguir caminhar sem me ver o tempo todo, sem me idealizar o Bardo, sofrendo por pensar estar sofrendo, gozando por pensar estar gozando. Eu sou o meu maior obstáculo, o que penso de mim, o que espero de mim, o que sei e o que não sei de mim mesmo.
Peço desculpas aos que me conheceram pessoalmente e abraço aqui do meu túmulo, fraternalmente como jamais consegui fazê-lo em vida, aqueles que apenas conhecem meu estilo, minha essência verdadeira e única forma de vida valiosa. Porque um homem que caminha só, só dispõe do caminho e de si mesmo. A estrada que ele percorre foi aberta por outro homem que perseguia outro destino. Tudo que pensa de si não chega a 50% do que sabe de si mesmo nem a 10% do que realmente é -- para os outros? Declara-se culpado então o homem de não poder parar de pensar no futuro, estando completamente ausente e infundado.

diegodomingos@yahoo.com

4 de abril de 2001

POEMA PERDIDO NUMA AGENDA DE 1998

Não ouvi meu coração ainda,
preciso do seu silêncio,
preciso ouvir as estrelas
e ver a cara do sol.
Quero este amor mas não
quero sua dor. Minha dor.

diegodomingos@yahoo.com