17 de junho de 2010

Monólogos de Pastelão


Sentado na calçada do poema

Vejo passar os carros de uma sentença

E dentro deles pessoas animadas bandadas

tiradas riscadas rabiscadas a-li-nha-das

Sentado às margens de toda a Poesia

Minha caligrafia me torna fria cinza

Estou dentro do tubo desta caneta

Corre tinta (de caneta) nas nossas veias

Ser poeta demanda tempo?

Alma vem com tempo já dizia Nelson Rodrigues

O tempo de uma criança que viveu poucos minutos

O tempo das Idéias

No tempo que idéia tinha acento

No tempo das reticências

...Quem tinha uma vírgula era Reificado...

Do alto de um parágrafo de sete andares

Eu me recuso a contar

Contar o tempo de um poeta

Contar o tempo de uma vida

Faço parte dos que não têm tempo

E mesmo que tivessem - não se importam

Para que, diabos!, serve um poema?

Para salvar o mundo? Só se for do próprio poeta

A poesia não serve para nada, além

De que nos serve o verso branco ou o soneto?

Há tanto ou mais poesia - na vida!

Eu o ajudaria a empurrar o carro para pegar

Juntaria outros amigos para bater sua laje, na lata até

Mas estas literatices não são de homem sério

Você devia cortar este cabelo, cuidar destes dentes

Ver um pouco de tevê - isto, sim, é normal!

Porque alguém que não quer ganhar dinheiro

não pode ser normal

Sabe como você pode terminar este poema?

(Estou te ajudando)

Atirando-o no lixo

E atirando a lixeira longe

Ser poeta nos dias de hoje - você deve estar brincando

Eu aprecio até alguns poetas - mas todos de séculos remotos

Lembra do bandido bom é bandido morto?

Então: deixa destas frescuras

Use estes livros mais grossos como calço

Olha: esta estante parece que vai cair

Quem é esta na fotografia? É sua filha ou sua mulher?

A sombra é sua - estou vendo

Por que eu nunca te vejo na missa?

É verdade que você é panssexual?

fumante passivo e jornalista sem diploma

Ter total confiança na poesia é como acreditar cegamente

Na previsão do tempo ou em horóscopo

A poesia é utopia como a sonhada sociedade justa e igualitária

Até socialmente a poesia é algo condenável

Porque ela afasta quem escreve do convívio social

Poeta que aparece em foto de coluna social não merece este nome

Poeta pra mim são todos os anônimos

Todos aqueles que não gostam de aparecer têm um pouco de poeta

Você acha o luar bonito? Eu também

Mas não por isto eu cometo poemas

Daí você escreve mas não mostra pra ninguém

Então pra que escrever?

A graça não está em si mostrar?

E dá este trabalho todo que você me falou, mesmo?

Primeiro escreve à mão, depois digita, imprime

Lê em voz alta para ver se está bom

Matura na gaveta um tempo, relê, reescreve alguns trechos

Torna a dizê-lo em voz alta para si mesmo, engaveta de novo e esquece

Daí um belo dia a lagarta vira borboleta, saindo do casulo?

Que desperdício de tempo, meu Deus!

Se fosse eu...

Se acreditas por que não publicas?

Tens medo de que não reconheçam ali o valor da tua poesia?

Pegas então no cabo desta enxada, ó Camões de Varapaus!

Até votaria em ti para deputado se fosses caixeiro e não belo letrista

Olha aqui a minha irmã, ó Poeta de Cochabamba!

Ela quer um banqueiro, um jogador famoso e ingênuo, um oficial

Ela nem nunca ouviu falar que poeta fosse profissão

Pra ela poeta e pederasta são sinônimos

Vamos viver de brisa, Anarina*

Um taxista encheu ela mas ela esconde este detalhe nas entrevistas de emprego e testes de sofá

Ser mãe é ver o pai descer do Paraíso

Como assim: escrever um romance? O que você sabe do Amor?

O Amor não está em nenhum livro, meu amigo

E amar não é uma lição que se ensine ou se aprenda - nos livros

Amar a Verdade não é amar de verdade

A gente vive um romance; é diferente

Mas Dom Quixote não era um desenho que passava no Balão Mágico?

Toda tarde era triste no pomar da nossa casa

As frutas, nos pés, não as do chão, aproveitaram melhor

Aquele tempo lento e escorrido (tal seiva) até a Morte do Sol no matante

Assim eu quereria o meu último poema*

Que se pusesse no ocaso para nunca mais voltar

Que me diz das ruas? São um bom lugar pra se viver?

Pra se passar, sim

Eu picharia muros com frases de livros

Andaria com pets de xixi

Os dentes pretos, as unhas sujas, envolvido num mau-cheiro

Roto como os ratos de esgoto

Escroto como os super-poderosos políticos

Não andaria nu mas estrategicamente com o peru à mostra

Teria esquecido o sorrir de si mesmo

Não teria mais norte

Qualquer um que se aproximasse seria declarado morto aos meus olhos

Não mendigaria e até recusaria esmola

Seria o dono da rua

Eu vou primeiro e espero do outro lado

Fechar o livro, fechar o poema é tarefa árdua

Poucos sobrevivem nesta selva de pedra

Ainda mais lançando mão de uma caneta, a-penas

Na fuga, se protegendo na área de fumantes

Se você me ouve é porque não fez nenhuma vítima ainda

É de graça este conselho:

Não declames teus poemas em praça pública

Guarde-os para si mesmo como se fossem ainda apenas pensamentos

Um homem vale pelo que diz mas vale muito mais pelo que não diz

Vai por mim

Fizeste uma boneca do teu livro?

Para mostrar a um editor?

Qual a cor da capa?

A gente conhece um homem, como os livros, pela capa

Queima-os todos se chegarem a ser publicados

A espiral negra da fumaça dominará os espaços negros de todos os mundos

Passando, ainda que de outro modo, a Mensagem.

- Você está brincando?! Eu não compraria um livro seu nem que...


Diego Domingos


*Leiam o poeta menor, Manuel Bandeira


Ilustração de Jacek Yerka em http://www.yerkaland.com/

2 de junho de 2010

POEMAS RECOLHIDOS NUM DIA DE INVERNO



Poemas ficam esparsos por gavetas e arquivos e num belo dia, ou num dia feio, você se pega pensando nuns versos originais mas não inéditos. É seu, mas não é de agora. Você próprio se diz de memória. Então é hora de trazê-los à luz. Para que você próprio os reveja. E aqui embaixo estão alguns destes versos quase poemas que estavam na sombra. Na memória. Quase soltos no ar de tão etéreos.


Eu sonharei todas as manhãs
Com novas canções me acordando.

***

Sem Deus não há mistério.

***

Livra-se do livro
e agarra a sorte
morta de esperar.

***

Preciso do Manuel
Bandeira da poesia nacional.

***

Não rimam minha dor com teu amor.
A dor é minha e o teu amor é livre.
Ela está aqui dentro e ele aí fora.
Minha dor é só minha.
Teu amor é de ninguém.

***

Se quero escrever ela não vem.
Se quero sair ela chega.
A Poesia é assim.
Num quer o que quem escreve deseja.

***

Vivemos na mesma vila
Onde vivem também
Outros vilões e outras heroínas.
A sorte nos sorri da esquina
E quando alcançamos esta
Já não avistamos aquela.

***

O fim está mais próximo do início do que imaginamos. (2/6/2010)

Diego Domingos foi passadeira num castelo medieval em outra vida